Sombrio, sangrento e certeiro: o Justiceiro/The Punisher acerta o alvo na Netflix

Sombrio, sangrento e certeiro: o Justiceiro/The Punisher acerta o alvo na Netflix Nos primeiros minutos da série NetFlix Justiceiro (Punisher), antes mesmo da vinheta de abertura do programa, Frank Castle mata mais gente do que todos os outros heróis Marvel lançados pelo canal juntos. Na sequência a coisa fica mais lenta, complexa, e nem por isso ruim (ou menos sanguinolenta). 


A nova série do canal de streaming talvez surpreenda – ou até decepcione – quem espere ver um Castle “bolsonariano”, concentrado em simplesmente matar bandidos, mas quem leu as melhores fases do personagem nos quadrinhos vai reconhecer o argumento: o foco aqui é o que realmente aconteceu com o personagem na guerra e como isso gerou a conspiração que, em última análise, foi a responsável pela morte da família dele.

A história começa com Frank – brilhantemente interpretado por Jon Bernthal (que já tinha dado vida ao personagem em Demolidor, mas é mais lembrado como Shane, de The Walking Dead) - finalizando de maneira cruel a vingança contra aqueles que acha terem sido responsáveis pela morte da esposa Maria e dos filhos. Ele então queima a roupa de Justiceiro, a narrativa pula um período de seis meses e o que se vê é um Frank barbudo, trabalhando mecanicamente uma construção, na qual não fala com ninguém e passa dias e noites quebrando paredes, fazendo com que os demais peões de obra pensem até que ele tem algum tipo de deficiência mental. 


Dado como morto e usando uma identidade falsa, o fato é que Castle continua sofrendo com pesadelos no qual vê a família sendo chacinada e, diferentemente do que imaginava, não foram apagados pela vingança. 


Em paralelo, a agente Dinah Madani, que conduzia no exterior investigações sobre a tortura e morte suspeita de um cidadão afegão durante a guerra, volta a Nova York disposta a concluir o serviço e, para isso, quer achar os homens que acredita terem participado do ato. Castle é um deles.


A partir daí a trama vai ganhando novos componentes, como o companheiro de tropa de Frank, Curtis, e os ex-combatentes traumatizados que ele ajuda; o melhor amigo de Frank durante a guerra, Billy Russo, agora dono de uma empresa de mercenários que presta serviço ao governo (e quem lê os quadrinhos sabe muito bem quem Russo retalh...oops, se tornará); o maníaco e poderoso Rawlins, responsável pelas missões brutais e secretas do time de Frank; e até, seguindo a linha Netflix de fazer crossovers entre as séries Marvel que lança, a repórter Karen Page, surgida em Demolidor, que irá ajudar Castle a trazer a tona fatos da conspiração que ele irá descobrindo.

Os fãs de quadrinhos também vão identificar outro nome das HQs do Justiceiro: Micro. Assim como ocorreu nas HQs mais iniciais de Frank, na série ele é um gênio dos computadores que vai ajudar o (anti) herói, porém as semelhanças basicamente param por aí. Interpretado por Ebon Moss-Bachrach, o Micro da série é mais jovem, não têm um filho adulto que se une ao time e acaba morto, nem tampouco vai se tornar um vilão no decorrer da história... mas, por outro lado, teve sua vida revirada de cabeça para baixo ao descobrir o vídeo onde os soldados americanos torturavam o tal afegão e acabou tendo que fingir a própria morte para se salvar.


Obrigado a abandonar a família, a quem continua acompanhando secretamente por meio de câmeras, ele quer a antiga vida de volta e acredita que poderá conseguir isso com a ajuda de Frank. A relação entre os dois, que por sinal começa com o Justiceiro torturando Micro por não ter certeza de o que realmente ele quer, é um dos pontos altos da série. 


Vale ressaltar que quem espera a típica brutalidade do Justiceiro não vai se decepcionar, mas deve ter calma porque há vários momentos mais arrastados na série, na medida em que o enredo vaio se desenrolando, mostrando os aspectos psicológicos não só de Castle como dos demais personagens. Os últimos três episódios, porém, são dinamite pura. Ou melhor, com muitas vísceras. 


Destaque aí para a cena muito bem feita na qual Rawlins tortura Castle e o Justiceiro “se desliga” da dor relembrando momentos mais íntimos – e tórridos - com a esposa morta. Em determinado ponto da cena, na qual a esposa de Frank mostra no rosto expressões de prazer, há um corte para o rosto de Rawlins com expressões semelhantes, mostrando de maneira inequívoca o sadismo do militar sobre o qual os personagens já haviam feito referência.


A reviravolta e o troco de Frank são brutais no melhor estilo Garth Ennis (o roteirista responsável pelas HQs mais grotescas do Justiceiro na Marvel), bem como tudo o que se segue a elas, num ritmo alucinante que segue até os minutos finais, deixando o espectador sempre nervosamente esperando o que vai dar errado ou não na sequência. 


O produtor Steve Lightfoot, porém, conduz tudo com muita maestria até o combate final do Justiceiro com aquele que se mostra o verdadeiro vilão da série – e que deverá ser o futuro vilão também. 


Ambientado no famoso carrossel do parque onde ocorreu o massacre da família Castle (que tem alguns momentos anteriores a ele relembrados em flashbacks fundamentais para o entendimento mais completo dos personagens), o embate é um dos mais violentos do seriado. E termina do jeito exato que os fãs de quadrinhos saberão de antemão, previsível, mas nem por isso menos impactante.


Há quem diga que o que vem depois disso, o fim propriamente dito, é um pouco anticlimático. E quem diz isso não está errado, afinal depois de tanta adrenalina, a conclusão da história – sim, ela se conclui – pode parecer um pouco sem sal. Contudo, não deixa de ser um certo alívio ao espectador poder ver cada uma das tramas abertas tendo seu final (feliz?). E, ainda que não tenha nenhum tiro, facada, tortura ou pancada, o ato final de Frank Castle revela bem a alma do Justiceiro.

Enfim, depois de ter dado duas belas patinadas com Punho de Ferro e Defensores, a Netflix acertou no alvo com The Punisher. E, como costuma fazer, deixou caminho aberto para uma segunda – e ainda mais sangrenta – temporada. 

Publicado originalmente em 24 de novembro de 2017


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