Quadrindex: o Gralha, o herói de Curitiba

Quadrindex: o Gralha, o herói de Curitiba Criação: Em outubro de 1997, a extinta revista Metal Pesado resolveu fazer uma edição especial para comemorar os 15 anos da Gibiteca Municipal de Curitiba. Para realizá-la foram convocados vários quadrinistas locais e entre eles surgiu um grupo com a ideia de fazer um projeto que homenageasse um personagem pouco conhecido dos quadrinhos curitibanos, o “Capitão Gralha.”


Publicado no início dos anos quarenta pelo também praticamente desconhecido Francisco Iwerten, o capitão era um fugitivo de um planeta de homens-pássaros, regido pelo terrível Thagos, o usurpador. Capitão Gralha encontrou refúgio na Terra, onde utilizava seus poderes alienígenas no combate ao crime no Paraná.

Misto de Flash Gordon com Super-Homem, ele teve vida breve. Foram publicados apenas dois números de suas aventuras, mergulhando esse trabalho pioneiro no mesmo abismo que tantos outros precursores das HQs nacionais. Infelizmente, ninguém sabe se existe ainda algum exemplar de suas revistas.


Foi unânime entre os artistas que se reuniram em 97 que um homem alado, com um “G” no peito e bigodinho não seria muito bem visto às vésperas do século XXI. Optou-se então por criar uma versão atualizada do Capitão. Alessandro Dutra criou o visual, Gian Danton e José Aguiar se ocuparam do roteiro. A arte ficou por conta de Antonio Eder, Luciano Lagares, Tako X, Edson Kohatsu, Augusto Freitas, Dutra e Aguiar e Nilson Miller fez a capa da edição. E assim o Gralha fez sua estreia.

Um ano depois o personagem ganhava sua página semanal no caderno Fun, da Gazeta do Povo, agora como um adolescente que descende do Capitão Gralha original. Um herói iniciante em uma metrópole um pouco diferente da Curitiba de hoje. Na opinião dos autores, “talvez a única cidade do país onde um super-herói se enquadraria sem parecer (muito) deslocado”. 


O Gralha também ganhou uma série de HQs na Internet, inicialmente em uma página que trazia várias informações sobre quadrinhos, mas na qual ele era obviamente a atração principal. Depois, a página evoluiu para um portal do herói (http://www.ogralha.com.br/). Em 2001, o personagem ganhou um álbum caprichado pela Via Lettera (O Gralha – Primeiras Histórias), com 120 páginas de aventuras.


Como as histórias são desenhadas e têm roteiro de vários autores (o grupo original e outros artistas se revezam nas HQs), cada aventura tem um estilo diferente. Alguns de seus autores gostam do estilo super-heróis, outros abertamente o detesta. Uns o desenham cartunizado, alguns realisticamente ou até mesmo de maneira abstrata. Junte-se isso aos bons argumentos, muitas vezes misturando aventura e bom-humor, e as HQs são ótimas para se ler. 


Um bom exemplo é a história Sangue, Suor e Hormônios, de José Aguiar. Usando enquadramentos cinematográficos e uma narração muito particular do Gralha que destoa da realidade, Aguiar apresenta a vilã Araucária em uma HQ inteligente que faz qualquer um rir pra valer. Aliás, vale ressaltar um grande diferencial do Gralha: além do personagem principal ter o nome da ave que tem papel fundamental no equilíbrio ecológico do Paraná (são as gralhas que espalham as sementes da araucária), tanto heróis como vilões têm nomes brasileiros e, na maioria dos casos, derivados de substantivos e expressões regionais. 


Em 2015, em comemoração aos 18 anos do personagem foi lançado O Gralha – Artbook, reunindo 160 páginas de material visual, artes, HQs, ilustrações e informações gráficas do herói curitibano. O livro levou o prêmio HQMix de melhor publicação independente de grupo.

Vale citar ainda que a Photon Filmes fez vários “live actions” curtos (e pelo menos uma animação) com o personagem, que podem ser conferidos no You Tube, mas o resultado, bem... prefira os quadrinhos. 


Enredo: 

A história se passa em Curitiba, em um futuro próximo e mais tecnológico. Gustavo Gomes, um adolescente de aproximadamente 19 anos, “herda” os poderes de um parente distante (o Capitão Gralha). Por meio de duas pedras coladas à sua roupa, o rapaz ativa suas capacidades latentes. Para que isso ocorra é necessário que ele as toque com sua pele. Se tocar em apenas uma, seus poderes seriam parciais e mais difíceis de controlar.

O Gralha ainda não conhece a real extensão de suas capacidades, nem tem total controle sobre as que já conhece, agindo muitas vezes na base da tentativa e erro. Os poderes do Gralha são, na definição dos autores, o “kit básico” do super-herói com mais algumas coisinhas: voo (velocidade máxima de cerca de 300 Km/h) e superforça (o suficiente para suspender 10 toneladas de peso do solo, ‘algo como levantar um fusca, mas nunca arremessaria um caminhão por exemplo’).


Além disso tem “poderes sonoros”: pode encontrar a frequência de ressonância de até mesmo uma estrutura atômica, destruindo assim um objeto específico. É uma capacidade que ele não domina plenamente, apelidada vulgarmente de “Grito do Gralha”; ventriloquismo (pode facilmente criar vozes e projetá-las onde bem quiser); superaudição (de alcance não muito grande, algo em torno de até cerca de 30 metros ao ar livre); e poder de sugestão (pode gerar certas freqüências sonoras que alteram a percepção que o cérebro humano tem da realidade. Não tem controle sobre o que as pessoas vêem quando estão nesse estado “hipnótico”. O resultado pode variar de um indivíduo para outro).

Quando não é o Gralha, Gustavo é um adolescente que possui poucos amigos e é uma pessoa razoavelmente introvertida. Faz cursinho pelo segundo ano seguido, pois no primeiro descobriu seus poderes e acabou dando pouca atenção aos estudos porque tinha de salvar o mundo...ou pelo menos Curitiba.


Mora sozinho numa kitnet e vive da mesada paga pela mãe. A cidade de Curitiba é um personagem à parte em seu universo, onde todas as características da verdadeira são elevadas à enésima potência. Localizada num futuro indeterminado, nela convivem arranha-céus gigantescos e muitas, muitas árvores. Essa Curitiba parece crescer ordenada e infinitamente, chegando até mesmo ao Atlântico. Na verdade, ela é o paraíso de todo super-herói. Nela todos os lugares-comuns do gênero “herói encapuzado” existem. 

Personagens

Além de Gustavo/Gralha, o grande destaque são os vilões como:

Araucária - ex-assistente do dr. Botânico, foi usada como cobaia num experimento para a criação de um híbrido meio-animal, meio planta. Trocou seu sangue por seiva, se tornando extremamente forte e capaz de alterar sua estatura de meros 1,60m para até o tamanho do mais alto pinheiro. Extremamente gananciosa e voluptuosa. Suspeita-se que já teve um caso (ou vai ter) com o Gralha.


Dr. Botânico - Todo herói precisa de um cientista louco e o doutor é o clássico modelo de cabelos arrepiados e jaleco de professor. Antes de enveredar pelo crime era um renomado biólogo que descobriu como dar consciência às plantas e que trabalhava para o governo. Quando em visita ao seu laboratório, no Jardim Botânico, um secretário da prefeitura foi atacado por uma de suas criações e, horrorizado com o trabalho do doutor, cortou-lhe as verbas. Desamparado e desesperado, ele se valeu de suas sementes especiais, para criar um exército de plantas humanóides para destruir a cidade em sua vingança pessoal. 

O Bagre Humano - Nasceu em Paranaguá e que dizem ser sua mãe uma sereia. Graças a sua aparência pouco agradável e ao preconceito, é um eterno descontente. Ranzinza e introspectivo, seus crimes sempre estão ligados a alguma coisa que o incomoda e o leva a alguma medida extrema, que prejudica as demais pessoas.


O Craniano - Um homenzinho estranho com um crânio imenso tatuado com estranhos caracteres que lembram uma pessanka (ovo pintado ucraniano). Dono de um supercérebro, capaz de superar até mesmo o gênio do Doutor Botânico. Extremamente calculista e incapaz de expressar emoção. Possui total desprezo pela humanidade, não ligando para dinheiro ou mesmo poder político. Seus objetivos dizem respeito apenas a si mesmo, não se importando com quem cruze seu caminho. Dizem que atua ao lado de um certo “João- Ninguém”. 

Biscuí do Mato - Maníaco extremamente perigoso e violento. Se veste de maneira extravagante e aparentemente sem nenhum significado específico, assim como seu nome. Nada além disso sabe-se a seu respeito.


Pivete Cibernético - Garoto de rua revoltado, porém inventivo e extremamente hábil com o skate. Possui grandes conhecimentos de mecânica para sua pouca idade, tanto que desenvolveu um skate turbinado voador. Especializado em pequenos furtos.

Café Expresso - Bizarro criminoso que possui uma cafeteira no lugar da cabeça. Antes considerado mais uma lenda urbana que servia café envenenado a vítimas aleatórias. Foi descoberto quando matou 54 pessoas de uma só vez, servindo-lhes café com estricnina. Teria enlouquecido após a trágica morte de sua esposa, de alguma forma ligada ao café. É ,na verdade um romântico homicida. Sua verdadeira identidade é um mistério. Especula-se que tenha sido um garçom na Boca Maldita, um ponto de encontro entre artistas e intelectuais de Curitiba.

Completam a lista o Homem Lambrequim (que tem um machado no lugar da cabeça), o doutor Marrom e a Polaquinha, entre outros. 


Curiosidade: Ciro Gomes preside HQ 

Na HQ ‘Poderes Constituídos’, a história começa com um presidente chegando à cidade. Apesar do nome do homem não ser dito, a cara não engana: é Ciro Gomes. Ao menos no mundo do Gralha o político de Pindamonhangaba – radicado em Sobral-CE há mais de cinquenta anos - conseguiu atingir o seu sonho presidencial. Mas a primeira dama Patrícia Pillar não aparece, infelizmente...


Assista ao Vídeo:
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