Criador do Coringa e do Robin, Jerry Robinson diz que o vilão é muito mais interessante que Batman e que estão transformando o menino-prodígio em um travesti

Criador do Coringa e do Robin, Jerry Robinson diz que o vilão é muito mais interessante que Batman e que estão transformando o menino-prodígio em um travesti Aos 17 anos, o desenhista norte-americano Jerry Robinson foi o responsável pela criação do primeiro "assistente de herói" que se tornou tão famoso quanto o personagem principal: Robin, o menino-prodígio. Aos 78, Jerry, que visita o Brasil pela quarta vez, não gosta muito do rumo que o garoto tomou.

Tampouco está feliz com o que fizeram com outros personagens desenvolvidos por ele para as HQs de Batman, como Mulher-Gato e Pinguim - a única exceção, talvez, seja em relação a seu filho predileto, o Coringa. "Mas todos estão muito próximos de se tornarem uma piada", diz, fazendo um trocadilho com a palavra "piada" em inglês (joke) e o nome original do Coringa (Joker), para logo a seguir explodir em risos ao dizer que endossa uma opinião que ouviu no Brasil: "Estão transformando Robin em um travesti."



Jerry Robinson está em São Paulo até o início de dezembro, para acompanhar o lançamento do documentário A Vida Após Batman, quarto episódio da série Profissão Cartunista, que será levado ao ar no dia 1º de dezembro de 2000 pela TV Senac de São Paulo. Atualmente, Jerry, é presidente da Cartoonist & Writers Syndicate, uma distribuidora internacional de cartuns que tem em seus quadros até mesmo alguns artistas brasileiros, como Ziraldo, Ique e os irmãos Paulo e Chico Caruso.


O pai de Robin diz que não lê mais muitos quadrinhos, mas recentemente ajudou a desenvolver uma nova personagem no Japão, batizada de Astra. A seguir, em entrevista exclusiva concedida por telefone do quarto onde se hospedou no Maksoud Plaza, Jerry Robinson fala sobre as origens de Robin, do Coringa e muito mais.

Antes, porém, um parêntese ao leitor desavisado: o Robin criado por Jerry chamava-se Dick Grayson e os editores e argumentistas da DC Comics o transformaram em um novo herói quando ele cresceu, chamado Night Wing. Batman teve um segundo Robin, Jason Todd, que morreu nas mãos do Coringa, e atualmente está no terceiro, o pós-moderno Tim Drake *



Mundo HQ - O senhor criou Robin e hoje ele é Night Wing, um herói cabeludo de colante. Mulher-Gato era uma vilã sensual, mas hoje é quase uma heroína e parece um outdoor de implante de silicone. Como o senhor se sente quando vê estes personagens hoje?
Na verdade eu procuro não vê-los mais. Acho que todos eles estão se tornando uma grande piada. Concordo com o que me disse alguém aqui no Brasil, que eles (os argumentistas e editores da DC Comics) estão fazendo de Robin um travesti (risos). Existe um novo público de quadrinhos e os novos escritores e editores querem deixar sua marca, fazer algo dramático, incrementar vendas.


Mas como o senhor se sente em relação a isso?
Como eu disse, eles querem deixar sua marca. Agora, se é bom? Bem, isso eu deixo a cargo dos leitores.

Em 1954 o psicólogo Frederick Werthan lançou o livro A Sedução do Inocente, no qual afirmava que os quadrinhos eram responsáveis por crimes e "desvios sexuais", e dizia Batman e Robin eram um casal gay. O livro fez com que HQs fossem queimadas e gerou o códiho de censura nos quadrinhos americanos. O que o senhor, que criou Robin, achava das afirmações?
O livro todo era muito estúpido e sem nenhuma base científica. Werthan foi apresentado como um renomado psicólogo ou psiquiatra, coisa que não era. Na verdade eles (o governo) estavam tentando achar alguma razão para aquilo e queriam culpar alguém ou alguma coisa. Os quadrinhos foram o bode expiatório.


Um dos personagens mais fantásticos - até hoje - que o senhor já criou foi o Coringa. Como ele surgiu e como o senhor teve a ideia para o visual dele?
Queria um novo supervilão. Naquela época todos eram gangsters e bandidos comuns. Eu já estava na faculdade e sabia por meio de várias leituras de mitologia que todo herói tem de ter um antagonista e eu queria que este vilão fosse memorável. Um personagem memorável, por sua vez, tem de ter contradições em sua persona. Então, como na época eu escrevia alguns textos cômicos, surgiu a ideia de um vilão com senso de humor. O nome tinha de ser forte e Joker (piadista/Coringa) veio naturalmente e imediatamente eu associei este nome com a carta de baralho. O visual, então, foi baseado na carta de baralho clássica do Coringa: cara branca, cabelos verdes, sorridente. Os autores que me sucederam criaram uma explicação para o rosto branco (nota da redação: o Coringa teria caído em um tanque de ácido em um ataque fracassado, o que gerou uma alteração de pele).Eu, no entanto, nunca teria explicado. Permaneceria um mistério.


O senhor gosta dele?
O Coringa é muito mais interessante do que o Batman (risos). Mesmo porque um herói tem de ser sempre... um herói. Não dá para fugir muito daquilo. Já um Coringa...


E quanto ao Robin? Aqui no Brasil um jornal afirmou que o senhor, que hoje é uma lenda das HQs, teria colocado este nome nele já naquela época para se auto-homenagear...
(Risos) Não, eu não dei o nome por minha causa. Esta entrevista à qual você se refere foi feita por telefone de Nova York para o Brasil e provavelmente a pessoa entendeu errado minha resposta. Quando criei o Robin eu tinha 17 anos era muito jovem para ser uma lenda (risos). Seria muita presunção da minha parte naquela época dar meu nome ou parte dele a um personagem. Além disso, eu trabalhava com grandes artistas como Will Eisner, Bill Finger e Bob Kane, e eles eram mais velhos que eu, tinham seus 25 anos. Por isso eu queria sempre parecer mais velho, mentia a idade, e não colocaria meu nome em um personagem que era chamado de garoto-prodígio (boy wonder, em inglês). Robin ganhou seu nome por causa de Robin Hood. Isso porque eu era fã deste herói arqueiro quando jovem e inspirei as roupas do personagem em desenhos que o ilustrador M.C. Wyatt havia feito para o livro de Robin Hood que li na minha infância. Então a história de eu ter dado meu nome é boa e engraçada, mas não é verdadeira.


O senhor lê ou faz quadrinhos atualmente?
Não leio mais gibis, mas estou envolvido com cartuns. Sou presidente de uma distribuidora que representa inclusive artistas brasileiros como Ziraldo, Ique e Chico e Paulo Caruso. Mas, recentemente, criei em coautoria com a quadrinista Sidra Cohn uma super-heroína chamada Astra, que foi lançada no Japão. Ela veio de um planeta onde só restaram mulheres, em busca de um parceiro, mas os terrestres acabam explorando-a por terem interesses na tecnologia e conhecimentos que ela possui. É uma história que mostra do que realmente é feita a civilização da Terra. Por enquanto só é publicada no Japão, mas estamos levando-a para os EUA e me agradaria muito ver a personagem, que é baseada em um musical, no Brasil.


* Entrevista concedida ao MundoHQ em novembro de 2000 (depois dela, Jason Todd foi trazido de volta à vida e Damian, filho de Batman e Talia, tornou-se o quarto garoto a vestir o uniforme de Robin. Jerry Robinson, nascido em primeiro de janeiro de 1922, faleceu em 8 de dezembro de 2011, aos 89 anos.

** Robin fez sua estreia no gibi Detective Comics número 38, de 1940

*** O Coringa estreou em Batman 1, também em 1940

Entre em Contato com o Mundo HQ

Seu endereço de email não será divulgado, porém, deverá ser um e-mail válido para obter a resposta. Campos obrigatórios são marcados*