Marcelo Cassaro fala sobre o fenômeno Holy Avenger

Marcelo Cassaro fala sobre o fenômeno Holy Avenger O nome da revista é em inglês e o traço é japonês, mas Holy Avenger, uma das mais badaladas história em quadrinhos dos últimos tempos, é uma brasileira legítima. Criada por Marcelo Cassaro e com desenhos de Érica Awano, HA - como é carinhosamente chamada pelos leitores - foi publicada em 40 exemplares e chegou ao fim em agosto de 2003. Cassaro, que estará em Campinas no dia 2 de novembro de 2003 para participar do II Festival de HQ e Universo Fantástico, já lançou outro título na mesma linha, Dungeon Crawlers.


Os “órfãos”de Holy Avenger, no entanto, são muitos. Boa parte não se conformou que a história tenha terminado, afinal, se as histórias do Super-Homem se arrastam mais de seis décadas, por que uma história nacional tão boa durou apenas dois? “Porque toda boa história deve ter começo, meio e fim”, justificou Cassaro várias vezes, alfinetando dezenas de super-heróis, talvez sem perceber. 

Holy Avenger contou a história de um grupo de aventureiros típicos de RPG (o Role Playing Game, ou jogo de interpretação) que, sem saber, participam de uma trama arquitetada em torno de uma espada sagrada (a tal “Holy Avenger”) pelos deuses de Arton - planeta onde se passa a história.

Tendo como principais personagens o ladrão atrapalhado Sandro, a elfa alienada Niele, a druida angustiada Lisandra e o invocado troglodita (um guerreiro lagarto anão) Tork, a história conquistou milhares de leitores e rendeu até alguns subprodutos, como um livro com ilustrações artísticas dos personagens. Um desenho animado da série também está em estudo, como revelou Cassaro nesta entrevista exclusiva.


Comenta-se que Holy Avenger foi um fenômeno sem precedentes em vendagem de uma revista nacional. A que você atribui esse sucesso todo?
“Sem precedentes” é exagerar um pouco, porque já existiram quadrinhos nacionais com vendagens muito mais altas. Mas foi em tempos melhores, quando as revistas vendiam mais. Nos dias de hoje, qualquer título que ultrapasse vendas de 30% é considerado um sucesso. As revistas em quadrinhos que vemos atualmente nas bancas têm tiragens entre 10 mil e 30 mil exemplares. Quando vendem acima de 30% do total, significa que conseguiram pagar os custos de impressão - e isso já é considerado bom. Holy tinha vendas entre 40% e 50%. É difícil atribuir o sucesso a algo específico, foram muitos fatores. Primeiro a regularidade e continuidade, pois os leitores estão cansados de ver HQs nacionais atrasadas ou canceladas logo no número 3, então manter a revista nas bancas todos os meses foi vital. Segundo, a revista era em estilo mangá e também tinha ligação com um cenário de RPG bem-sucedido, atraindo leitores de ambos os segmentos. Terceiro, o preço foi mantido exatamente o mesmo desde as primeiras edições. E assim por diante.

Há algum tempo atrás você comentou em entrevista ao MundoHQ/Caderno C que as histórias de UFO Team e Capitão Ninja (outros títulos escritos por Cassaro) se passavam em cenários estadunidenses e com personagens de nomes “importados” porque o leitor brasileiro não se identificaria com um super-herói que se chamasse José, morasse em uma favela e nas horas vagas fosse o Capitão Amazônia, por exemplo. Isso mudou ? Por quê?
Não mudou. Muitos autores brasileiros acham possível fazer histórias de super-heróis simplesmente transportando o gênero para cá, mudando o cenário e os personagens - e quando alguém afirma o contrário, acusam de preconceito, de falta de patriotismo. Acontece que os super-heróis, em sua essência, refletem a personalidade e cultura norte-americanas. Eles são “supers” simplesmente por nascer, ou recebem poderes de fontes externas - da mesma forma que o americano típico pensa ser superior apenas por ser “americano”. Isso é totalmente oposto aos heróis japoneses, por exemplo, que só ganham superpoderes com treino e esforço - nunca por nascer em outros mundos ou ser picados por aranhas radioativas. Até mesmo Goku (de Dragon Ball), que veio de outro planeta, tinha que treinar para ficar forte! Super-heróis existindo em nossa realidade, com nossos nomes, sempre soará estranho - porque não somos assim tão arrogantes. O mesmo vale para artistas marciais com poderes sobrenaturais, estilo Street Fighters, porque também não somos assim tão disciplinados. Então, é mais fácil imaginá-los como americanos ou japoneses.



Holy Avenger foi inspirado no RPG Tormenta, mas e os personagens em si, também foram criados para uma ou mais partidas? Se não, houve alguma base ou inspiração para os principais personagens?
Um personagem utilizado para jogar RPG não funcionará necessariamente em uma HQ. Mas alguns conceitos básicos de Holy foram, sim, inspirados em fatos ocorridos na mesa de jogo. Nosso amigo Sandro Gonçales certa vez jogou com um guerreiro que queria ser um ladrão como seu pai - por isso o “não-ladrão” de Holy tem seu nome. Niele foi baseada em um elfo bardo que fingia ser um mago. Lisandra e Tork não tiveram nenhum equivalente em RPG: eles são algo mais como Mogli (o menino-lobo, popularizado no desenho de Walt Disney) e Wolverine (da Marvel), respectivamente.

O roteiro de HA é muito bem costurado. Olhando a obra toda, vê-se que muitas pontas soltas foram deixadas no decorrer da trama e amarradas no final. No entanto, há boatos que em determinadas ocasiões você, roteirista, apelava para as raízes rpgisticas da HQ e rolava um D20 para determinar o que aconteceria... há alguma verdade por trás desse boato?
Rolar dados para decidir os rumos da história nunca funcionaria com uma HQ. Mas é verdade que Holy foi conduzida mais ou menos da mesma forma que uma partida de RPG - porque, quando comecei, eu não sabia qual seria o final e nem como chegaria lá. Um Mestre de RPG deve ser flexível, alterar a aventura de acordo com as decisões dos jogadores, então nunca existe um final definido.

Em HA há o característico humor sexual brincalhão dos mangás, em especial nas piadas com os seios enormes da elfa Niele. No entanto, quando Niele aparece totalmente nua realmente, seus seios são completamente lisos, no estilo boneca Barbie. Mesmo no mangá Dragon Ball, muito consumido por crianças, os seios de Bulma já apareceram sem nenhum tipo de suavização. Por que em HA ocorre essa “dessexualização” ? Linha editorial? Moralismo? Censura? Birra da Érica Awano?
É notório que a senhora Awano nunca ficou muito confortável desenhando uma elfa peituda e quase pelada. Em todas as ocasiões fez tudo para torná-la menos sensual e mais engraçada, graciosa, divertida (Niele deveria ter patinhas; os pezões de coelho não foram idéia minha!). Funcionou, até certo ponto: Niele de fato ficou divertida e engraçada, mas AINDA sensual.


Há planos para transformar HA em desenho animado?
Recentemente fui contatado por um diretor de cinema razoavelmente conhecido, que acha possível transformar Holy em uma série animada ou mesmo um longa para cinema. Ainda estamos fazendo reuniões para determinar como isso pode ser feito.

E quanto a action figures ou miniaturas?
Isso também é algo que estamos estudando. 


Recentemente vocês lançaram um livro com a arte dos personagens de HA. Outros produtos editoriais ou mesmo spinoffs da série estão programados?
Muitos, sendo que quase todos serão lançados durante a Dragão Fest - um evento comemorativo dos cem números da Dragão Brasil. Estava marcado para os dias 15 e 16 de novembro, mas será antecipado para os dias 6 a 9. Se tudo correr bem, teremos o CD áudio Ouvindo Holy Avenger, com histórias narradas por alguns dos melhores dubladores do Brasil; Holy Avenger D20, um livro de capa dura com tudo sobre Holy Avenger para o jogo Dungeons & Dragons; Holy Avenger 41 e 42, duas edições extras que acontecem 5 anos depois do final; e Holy Avenger Especial 6, sobre uma personagem feminina querida do público.

Ao contrário de Holy Avenger, Dungeon Crawlers não é tão facilmente encontrada nas bancas? Por que isso ocorre?
Eu não fazia ideia de que DC tinha problemas de distribuição. Não posso responder por isso, pois essa revista é publicada por outra editora.

Quais as principais semelhanças - e diferenças - entre Dungeon Crawlers e Holy Avenger? 
Semelhanças, só posso dizer que ambas têm em comum o mesmo cenário e o mesmo roteirista. Holy foi uma série longa, e DC - até onde sei - será uma minissérie de quatro edições. Holy tem mais humor, DC tem mais aventura.

Há alguma previsão de personagens vistos em Holy Avenger voltarem a aparecer em Dungeon Crawlers ou em outro título futuro?
Exceto por uma rápida visita de Niele, acho que não teremos mais grandes encontros.

Por fim, o que você diria aos “orfãos” de Holy Avenger?
Algo que eu já disse antes: Holy terminou, mas a diversão não precisa terminar. Esta é uma história que será recontada de muitas maneiras, e em cada vez será mais divertida. Esperem para ver.

(entrevista publicada originalmente em outubro de 2003)

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