Desenhado pelo campineiro Eduardo Ferigato, O Último Fantasma chega ao Brasil

Desenhado pelo campineiro Eduardo Ferigato, O Último Fantasma chega ao Brasil
Os tambores dos Wambesi, Longo, Bandar e demais tribos de Bengala anunciam a boa nova: o Espírito-que-Anda está de volta! E não é qualquer um da família que há 400 anos combate a pirataria e a bandidagem em suas mais diversas formas. Trata-se do Último Fantasma. Mas espere, o som dos tambores traz mais uma novidade!

Esta encarnação do primeiro herói mascarado do mundo, criado em 1936, tem origem brasileira. O pai do novo Fantasma – pelo menos no traço – é Eduardo Ferigato, desenhista nascido em Campinas-SP.


Lançado em 2010 pela editora Dynamite nos EUA, sob a coordenação de Alex Ross (desenhista mundialmente famoso por seu traço realista em super-heróis) e com argumento brilhante de Scott Beatty , The Last Phantom chegou ao Brasil só agora em 2015 pela Mythos . A HQ conta a história do 21º Fantasma, teoricamente filho do herói mais conhecido no Brasil. Casado com a bela nativa Radhi e pai do menino Mosi, Kitdrige Walker exerce seu cargo de guardião de Bengala de maneira, digamos, mais macro: é presidente de uma fundação filantrópica gigantesca que recolhe e administra fundos em prol do país africano. Mas tanto dinheiro assim acaba atraindo desgraça para Kit .


“Ele é o filho do Fantasma clássico, aquele casado com a Diana Palmer, que aparece na história em flashbacks onde o novo Fantasma se lembra do duro treinamento com o pai para se tornar o novo Espírito-que-Anda. Ele tinha decido uma abordagem mais filantrópica no combate ao crime e às ameaças contra seu país em vez de usar sempre o uniforme, mas o assassinato de esposa e filho fazem com que ele mude de ideia e vista novamente a máscara e os anéis”, conta Ferigato.


Como era de se esperar, alguns leitores mais saudosistas resistiram um pouco ao novo argumento, mas foram poucos. A primeira edição esgotou nas comicshops americanas e a maioria absoluta das críticas foi positiva. “A resposta de alguns fãs foi ruim nas primeiras edições por conta das mudanças, mas depois que eles estão viram o rumo da história e que a mitologia do personagem tinha sido vez mais respeitada, até os mais exigentes se interessaram pelo novo Fantasma”, diz Ferigato.

Realmente, ainda que o argumento de Scott Beatty (que também reformulou Buck Rogers para a Dynamite) tenha causado uma estranheza inicial, já nos primeiros números os leitores comemoraram a presença do lobo Capeto, do cavalo Herói e até mesmo de um (obviamente) velho Guran. E, se a história teve um ou outro questionamento (injustos, é bom dizer, já que o argumento é muito bom), o mesmo não se pode dizer da arte do campineiro Ferigato, que só rendeu elogios e até mesmo comparações com outras feras internacionais do traço – entre os quais Mike Mignola, mais conhecido pelo personagem Hellboy.


“Esses elogios me fazem sentir muito bem, com certeza. Espero um dia chegar no nível de um artista tão talentoso e criativo como o Mignola, que é o meu preferido. E também servem como recompensa pelos vários anos de persistência e treino para entrar nesse mercado tão exigente como o dos quadrinhos americanos”, afirma.

O autor também recebeu correspondência de fãs que querem comprar páginas originais, bem como pedidos diferenciados. “Um que me chamou mais a atenção foi um canadense que vai me enviar um caderno onde ele coleciona desenhos de vários artistas que já trabalharam o personagem. Pediu que eu fizesse um desenho do novo Fantasma para ele e enviasse de volta. Achei muito legal da parte dele e me mostrou como os fãs são fiéis ao personagem no mundo todo”, revela. 


Oportunidade e honra

Ferigato formou-se como desenhista por meio de cursos em Campinas e São Paulo. Entre outros, teve como professores Marcelo Campos (Liga da Justiça, X-Man, Homem-Aranha), Greg Tochinni (Thor, 1602 Parte 2, Lanterna Verde), Otavio Carielo (Wolverine e Rainha dos Condenados), Roger Cruz (X-Force, X-Man, Hulk) e o premiado caricaturista campineiro Paulo Branco. Deste último, por sinal, tornou-se colega de trabalho: ambos chegaram a ministrar aulas na Pandora Studio, em Campinas. 


A oportunidade para desenhar o Fantasma surgiu por meio do estúdio Art & Comics de São Paulo. “Meu agente, Joe Prado, entrou em contato comigo dizendo que estavam interessados no meu trabalho para a série. Esse tipo de trabalho sempre é disputado com muitos artistas, os editores recebem dos agentes vários portfólios para análise e escolhem o artista que entendem ser o melhor para o projeto”, conta.

Selecionado com as bênçãos de Alex Ross, o campineiro assinou contrato para 24 edições. “Não necessariamente todas do Fantasma, eles podiam me colocar em outros projetos também. A Dynamite tem grandes personagens, como Zorro, Besouro Verde, Robocop, Exterminador do Futuro”, conta. 


Para Ferigato, trabalhar com o Fantasma é uma honra. “Eu conhecia o personagem de filmes e desenhos que assistia quando era mais novo. Meu pai também era fã e me lembro dele falando sobre a hereditariedade e sobre ele ser o Espírito-que-Anda. Como fã de quadrinhos me senti honrado e muito entusiasmado com a chance de desenhar um personagem com tanta bagagem e história”, afirma.

Ele destaca que Alex Ross – bem como o editor da Dynamite Joseph Rybandt e o roteirista Scott Beatty – lhe deram muita liberdade nos desenhos e na concepção das páginas. “Só quando tinha dúvidas sobre o uniforme ou algum detalhe, os consultava para que tudo ficasse de acordo com o que foi concebido para a história. E ter as capas de um artista como o Alex Ross em revistas desenhadas por mim é uma grande honra.” 


O visual novo do Fantasma foi todo desenvolvido por Ross, mas todos os demais personagens que aparecem foram criados por Ferigato a partir da orientação do roteirista. “E tive liberdade total em mudar algumas cenas do script de maneira que elas funcionem melhor visualmente”, diz.
Uniforme Vermelho

Apesar de originalmente o Fantasma ter uniforme roxo, em países como Brasil, Espanha e Itália o personagem foi lançado desde as primeiras histórias com fantasia na cor vermelha (segundo a lenda, por problemas gráficos para reproduzir o tom original). E esta nova versão do Fantasma faz, digamos, menção ao rubro de maneira inusitada: após um acidente de avião, o Espírito-que-Anda tem o uniforme completado pelo próprio sangue que banha seu corpo. Além disso, em cena em que o Fantasma-pai e Fantasma-Filho aparecem de uniforme, um usa roxo e outro escarlate.


Ferigato conta ainda que, apesar de ter se divertido ao desenhar a cena do “uniforme de sangue”, estava muito ansioso para fazer o Fantasma uniformizado de verdade. “Ao ler o roteiro pela primeira vez, mal pude esperar para desenhar a página em que ele vestia o uniforme. Finalmente o Fantasma estava de volta depois de muito tempo sem uma publicação inédita. Ao enviar aquela página para o editor eu escrevi no campo do email: “And the Phantom walks again!” ( E o Fantasma anda novamente!)” 


No entanto, nem tudo foram louros. Ferigato revela que sentiu sobre os ombros o peso de desenhar um herói clássico e tão querido, ainda mais em tempos de cobrança via Internet. “Senti a responsabilidade de trabalhar com um personagem de peso como esse. A Patrulha da Selva está sempre vigilante nos fóruns e blogs do personagem pelo mundo. Qualquer deslize e podia ser marcado com a caveira”, brinca.

Edição Brasileira

No Brasil, a Mythos Books reuniu as edições 1 a 6 de O Último Fantasma – que formam o arco “A Jornada do Espírito” - em um único livro de capa dura, encontrado nas melhores livrarias a R$ 59,90. Uma edição caprichada de 180 páginas, com tradução bem feita direito a galeria de capas (de Ross, Joe Prado e Fabiano Neves) e esboços dos personagens feitos por Ross e Ferigato.


Só faltou um cuidado maior na contra capa e na ficha catalográfica, que de maneira irônica erram justamente onde não deviam: uma ressalta o desenhista “basileiro” (sic) Eduardo Ferigato e a outra diz que o autor chama-se Eduardo “Perigato”. Nada que comprometa a obra, mas que é chato isso é. 


* Em tempo: esta matéria reúne informações de reportagem do MundoHQ publicada em 2010, quando o quadrinho foi lançado nos EUA e Ferigato ainda estava desenhando a edição cinco do primeiro arco, somadas a dados atuais por ocasião do lançamento de 2015.

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