Caio e os gays dos quadrinhos

Caio e os gays dos quadrinhos Boas histórias em quadrinhos sempre refletem a sociedade e a cultura em que se inserem, em seu aspecto mais amplo: maneiras de vestir, características religiosas, modismos, esportes, manias, filosofias, política, hábitos alimentares, artes, linguagens e linguajares e, claro, sexualidade. Assim sendo, não é de se espantar (pelo contrário) a presença de personagens gays em Histórias em Quadrinhos. Da sátira mais escrachada de Rocky e Hudson (de Adão) ao sensibilíssimo quadrinho biográfico Fun Home (de Alison Bachdel), homossexuais de ambos os gêneros são tão comuns em páginas de gibis quanto em ruas de cidades. O aparecimento de um novo personagem gay, porém, causou reboliço neste mês de novembro de 2009. Tudo porque o rapaz, que atende pelo nome de Caio, traz a assinatura de Maurício de Sousa.


A história foi publicada na edição número 6 da revista Tina é muito bem escrita, elegante – sem exagerar em estereótipos - e introduz o assunto de maneira sutil. Há que defenda, inclusive, que sutil até demais, dando margem para que Caio não seja gay em caso de polêmica exagerada. Cabe ao leitor ver e tirar suas próprias conclusões, mas, de maneira resumida, Tina se encontra com um amigo que não via há tempos em uma lanchonete: os dois conversam animadamente, juntinhos, dando as mãos, sem nenhum tipo de atração ou tensão sexual entre ambos.


Quando o namorado ciumento da moça chega ela explica que “o Caio é como um irmão” e ele, por sua vez, diz ser comprometido e pergunta a outro rapaz que chega acompanhando Zecão se não é verdade. O rapaz confirma e ambos saem de cena juntos. 


Tina acusa Miguel (o namorado dela) de preconceituoso e Miguel pede desculpas dizendo que não sabia que Caio era... e antes de a frase ser completada Tina explica que se refere a preconceito com ela, insinuando que Miguel a vê como uma moça que trairia facilmente o namorado. Como se vê, uma história elegante, até com certa possibilidade de interpretações duplas, mas para quem quer ver (e mesmo para alguns que não querem) não há dúvida: Caio é homossexual. E daí?

Daí que muitos meios de comunicação noticiaram equivocadamente que surgiu o primeiro personagem gay da turma da Mônica. Equivocadamente porque ele é da Turma da Tina, publicado na revista da ex-bicho grilo e agora universitária, cujo público é o adulto jovem. Essa foi uma das explicações dadas por Maurício para acalmar os leitores mais conservadores. 

Aliás, na nota que divulgou depois que vários jornais deram a matéria sobre Caio, Maurício é diplomático e, também de maneira elegante, se por um lado não sai abertamente do armário em relação ao personagem, por outro deixa claro que a opção de Caio deve ser respeitada: "A história que está provocando celeuma deve ser lida e interpretada pelo leitor (...) Repito, a revista Tina é uma nova publicação dirigida a um público adulto jovem. Lida a história, feita a interpretação, daí sim, comentários e críticas poderiam ajudar para falarmos a língua de uma sociedade esclarecida, lembrando que publicações dirigidas a faixas de idade diferenciadas podem e devem tratar qualquer assunto de maneira adequada ao seu leitor. Na TV, no cinema, nas revistas das bancas, há a separação por faixa de idade. Por que não haveria na nossa vasta galeria de publicações? Mas uma coisa vai se manter em todas as nossas produções: o respeito pelo ser humano. Pela pessoa. E a elegância no trato de qualquer tema"

Após a publicação da nota, alguns grupos ligados ao circuito GLT chegaram a criticar Maurício, dizendo que ele devia assumir de vez que Caio é gay e defender esta posição. O MundoHQ, porém, aplaude a iniciativa, a coragem e (por que não?) a diplomacia do autor ao, como dizem os mais velhos, “ir devagar com o andor”.


Não é fácil lidar com o conservadorismo e até mesmo com a hipocrisia de alguns setores da sociedade brasileira. Maurício sabe muito bem disso. Conforme revelou o roteirista Emerson Abreu (que há mais de uma década trabalha para a Maurício de Sousa Produções), quando o personagem Xaveco foi mostrado como filho de pais separados – algo também muito comum em nossa sociedade - muita gente entrou em contato com o estúdio dizendo que era um absurdo abordar um tema tão polêmico numa revista voltada ao público infantil.
“Em contrapartida, mães separadas elogiaram a iniciativa porque seus filhos sentiam-se alienados lendo as histórias da Mônica, onde toda família era perfeita e todo mundo tinha pai e mãe”, conta Abreu, que também se lembra de outra celeuma das historinhas: “Lembro de uma ocasião em que eu escrevi uma história da Magali sobre reencarnação. Alguns pais católicos odiaram! Acharam que eu estava colocando conceitos religiosos deturpados na cabeça dos seus filhos.”

Aliás, Abreu já previa que quando os estúdios mostrassem um personagem gay haveria muita polêmica, baseado em um episódio que deveria até causar graça. A personagem Denise, criada pela roteirista Rosana Munhoz na década de 1980, e cuja personalidade e padronização de desenho foi definida por ele uma década depois, usa gírias da cultura clubber.


Quando algumas delas - "Se joga", "Acredita no bate-cabelo", “A louca” e "Abafa o caso" estão entre as mais famosas – foram identificadas como comuns ao mundo gay, muitos pais protestaram contra a personagem e houve quem chegou a dizer (!!!) que as crianças poderiam ser incentivadas a se tornarem gays por gostarem de Denise. Como se orientação sexual fosse algo que realmente se escolhe...

Aliás, só para constar – conforme revelou Abreu na bela entrevista concedida ao site vírgula - Denise não é gay. “Não, a Denise não é gay. Ela só se interessa por homens mesmo. Ela já namorou o Ricardinho e hoje em dia tem um leve interesse pelo Titi. (...) A cena clubber estava no auge nos anos 90 e eu resolvi enriquecer o seu vocabulário com algumas gírias para mostrar que ela era uma menina mais antenada com o mundo atual (e também porque eu achava engraçado o fato de ninguém entender absolutamente nada do que ela dizia). Expressões como começaram a brotar nas revistinhas bem antes de caírem no gosto popular”, conta.

Como se vê, Maurício com certeza sabia o que iria enfrentar ao tirar Caio do armário. E, para sorte dos leitores, o fez mesmo assim. A presença de (mais) um personagem gay não deve ser interpretada de maneira alguma como um sinal do fim dos tempos, mas, sim, como um sinal de que os tempos mudaram e, para a sorte da humanidade, vão aos poucos se tornando mais tolerantes.

Diversidade sexual: alguns personagens e fatos gays dos quadrinhos

Rocky e Hudson 


Criados em 1985 pelo cartunista brasileiro Adão Iturrusgarai, os cowboys gays são uma sátira escrachada já a partir do nome, referência ao ator bonitão de Hollywood que era ídolo de dez entre dez mulheres, mas que escondia sua homossexualidade. “Antes de criar o Rock & Hudson eu pensei em criar dois gaúchos viados — é porque eu queria morrer,obvio, né? Mas aí, pensei, se eu criar dois gaúchos viados o pessoal só vai ler no Rio Grande do Sul. Então pensei em criar dois cowboys gays pra ficar mais universal. É isso só, não há nada além disso”, conta Adão.

Diz o autor sobre a reação do público (o gay, inclusive) sobre a dupla: “Já tive problemas com isso, mas recebi mais manifestações a favor do que contra falando de Rocky e Hudson. Tanto que já foram publicados em duas revistas gays, a Sui Generis do Rio de Janeiro e a Guapo de Buenos Aires”

Nanico (de Meia-Oito e Nanico) 


O cartunista Angeli criou em 1983 uma dupla de “revolucionários de botequim”, Meia-Oito e Nanico, que, nas palavras do criador eram “ Um, seco e moralista; outro, que queria soltar as plumas”. 


O pai de Rê Bordosa brinca, inclusive, que tem que pensar com uma cabeça homossexual quando faz as tiras da dupla: “Quando eu vou fazer o Nanico é lógico que eu tenho que pensar como gay. Se eu estou fazendo o Nanico com o Meia-Oito, pra fazer uma piada, tenho que pensar como um gay que está louco pra sentar no colo de um macho faz nessa hora…”


Primeiro beijo gay na Marvel 


Em 2009, a revista X-Force apresentou o primeiro beijo gay entre super-heróis. No exemplar 45, lançado nos Estados Unidos, os ex-colegas Rictor e Shatterstar saem do armário. Na história, Shatterstar é tirado de um transe por Rictor e Guido. Há muito tempo os fãs “suspeitavam” da dupla já que, sempre que ambos atuavam juntos na X-Force, diziam sentir saudades um do outro. Mais uma pista: os dois deixaram a equipe ao mesmo tempo para mudar-se, por um período, para o México para salvar a família de Rictor. Peter David, que criou o personagem, não confirma se Rictor é gay ou bissexual e diz que não deve satisfação aos fãs dos quadrinhos sobre isso. Traduzindo: a vida é dele, ué...

Mística e Sina: Elas quase foram...


Ainda falando sobre mutantes, diz a lenda que o criador Chris Claremont planejou Mística e Sina para serem lésbicas que criariam juntas o filho de Mística, o X-Man noturno. A ideia teria sido vetada por Jim Shooter, editor da Marvel na época, mas em algumas histórias as relações entre as duas, apesar de não românticas, ficavam meio em aberto (seriam mãe e filha, amiga mais velha e amiga mais nova ou...?). Por via das dúvidas, Mística teve alguns namorados.




Estrela Polar: o primeiro gay mutante 

De qualquer forma, foi entre o pessoalzinho homo superior que apareceu o primeiro herói gay assumido da Marvel. Jean-Paul Beaubier, mais conhecido como Estrela Polar (North Star) foi criado por John Byrne e Chris Claremont como um integrante da Tropa Alfa, um grupo de heróis canadenses. A primeira HQ do rapaz apareceu em Uncanny X-Men#120 (em 1979), mas o rapaz só saiu do armário em uma história em 1983. Jean-Paul tem poder de vôo e supervelocidade, além de uma irmã problemática: Jeanne-Marie (Aurora). A moça tem poderes semelhantes ao do irmão, mas sofre de esquizofrenia e dupla personalidade. 

Segundo consta, quando John Byrne elaborou o roteiro da Tropa Alfa (que aparece inicialmente em uma história na qual vai ‘ recuperar” Wolverine dos X-Men) ficou definido que haveria um personagem gay na nova equipe, mas não se sabia qual deles seria o homossexual: a decisão de que seria Estrela Polar foi tomada depois. Mesmo após a definição, a homossexualidade do personagem não era inicialmente citada ou comentada e sim sugerida de maneira sutil, de acordo com as regras internas da Marvel na época (provavelmente reforçada pelo famigerado Comics Code, a censura disfarçada em “código de ética” que imperou por décadas nas publicações estadunidenses). 


Jean Paul assumiu de maneira discreta, reforçada pela dupla personalidade da irmã – um dos alteregos dela aceitava o irmão gay, o outro condenava a “abominação”. Bill Mantlo, um roteirista que assumiu a tropa tempos depois, fez Jean-Paul contrair uma doença misteriosa que, muito descaradamente, era uma metáfora para a Aids. Mas a Marvel fez pressão para mudar a idéia inicial (até porque ela previa a morte do personagem no final do arco) e a doença foi tratada como uma decorrência da magia que envolvia Jean-Paul. 

O personagem foi apontado então como ligado a magia das fadas (mutantes ?) de sua terra Natal e a doença teria surgido em virtude de seu afastamento geográfico do local. Piada pronta reforçada tempos depois pelo também roteirista Peter David: “Ele não é gay, é uma fadinha.”

Marvel Millenium


Na versão Millenium (Ultimate), publicada no Brasil nos gibis do Homem-Aranha Millenium, não só Jean Paul é assumidamente e abertamente gay como outro mutante famoso dos X-Men, Colossus (Pietr rasputin), é seu namorado. Colossus é um russo super-forte que consegue transformar sua pele em “ aço orgânico”. Quando sai do armário, outro mutante que até então era seu amigo, Noturno, se revela homofóbico e a amizade acaba. 

A paixão de Colossus por Estrela Polar faz com que ele chegue a mutilar Wolverine em um conflito para salvar o namorado (todos se recuperam, menos Estrela Polar, que acaba paralisado em decorrência de uma overdose). Vale lembrar que o universo Millenium é uma (brilhante) versão atualizada do universo tradicional da Marvel e que, na versão tradicional, Colossus é hétero e um dos X-Men mais populares - o que gerou protestos de alguns fãs quando o personagem foi colocado como gay na versão alternativa.


Na DC Comics, gays secundários

Se na Marvel há mutantes gays, na DC a coisa fica mais restrita aos personagens secundários, ainda que de maneira mais resolvida e aberta que na concorrente. Nas HQs do Superman, por exemplo, John Byrne criou a policial Maggie Sawyer, lésbica assumidíssima.


Nas histórias do Flash, o originalmente vilão Flautista saiu do armário duplamente: deixou de ser vilão e se revelou homossexual. Muita gente dizia que dava para desconfiar por causa da roupitcha, mas em se tratando do universo do ligeirinho essa não é bem uma pista (alguém já viu os uniformes do Capitão Bumerangue e do Mestre dos Espelhos, só para ficar com dois exemplos?). 


Um fato interessante é que a DC trabalha Maggie Sawyer e Flautista como personagens com personalidades cativantes - o fato de serem homossexuais é só um dado a mais, não uma bandeira.

Montoya, eis a Questão

Outra personagem que saiu do armário na DC Comics é a policial Renée Montoya, presença antiga nas histórias do Batman. Originalmente, Montoya não foi criada como homossexual, mas os roteiristas decidiram mudar isso na série Gotham Central (no Brasil: Gotham City Contra o Crime). Montoya também foi elevada à condição de heroína mascarada – uma heroína também secundária, de pouca expressão, diga-se de passagem. Depois de enfrentar tragédias pessoais que incluíram seu próprio alcoolismo, a detetive é escolhida por um moribundo Questão para ser sua sucessora. Questão morre e Montoya assume a identidade do herói para salvar uma ex-namorada, que havia se tornado a Batwoman (opa, mais uma heroína gay na DC. E mais uma secundária...).

Apollo e Meia-Noite: como seriam Superman e Batman gays


Já que a DC Comics não cria grandes heróis gays, a editora Wildstorm fez isso para ela: tirou do armário os dois maiores ícones da concorrente por meio de uma paródia. Authority, série da Wildstorm estrelada por uma espécie de Liga da Justiça hardcore, que suja as mãos para impor a lei a seu modo, traz o que claramente são versões homossexuais de Superman e Batman: Apollo e Meia-Noite.

Criados por Warren Ellis, os dois são namorados e casca-grossas. Apollo é um super-humano cujos poderes são alimentados pela luz solar, dotado de força descomunal, invulnerabilidade, poder de vôo e a capacidade de disparar rajadas de energia pelos olhos (opa, onde eu vi isso antes?). Meia-Noite possui implantes neurais que o tornam o lutador perfeito. Ele é capaz de avaliar um adversário e criar dezenas de cenários e estratégias para vencê-lo e é também um excelente detetive, que se veste com roupa escura (opa, também soa familiar). Ah, no decorrer da série os dois se casam e adotam ¨uma bebê” – para entender o porquê das aspas é preciso ler a série.

Sir Tristain (Camelot 3000)



Camelot 3000, uma das séries mais cults dos quadrinhos, apresentou uma lésbica um tanto quanto diferente. Em uma história que mistura invasão alienígena e reencarnação, ressurgem no ano 3000 personagens lendários como o rei Arthur, Lancelot, Merlin e outros. Sir Tristain (Tristão) reencarna em um corpo feminino, mas com suas memórias de homem, e vive um dilema não só porque não quer ser tratado como literalmente uma lady, mas também porque redescobre sua amada Isolda, que reencarnou como mulher mais uma vez. Ao final da série, que é uma maravilhosa releitura dos cavaleiros da Távola, as duas mulheres têm um final romântico e sexualmente feliz.

A brasileira (o) Lord Fanny (1994)


O genial Grant Morrison criou a série amalucada e cheia de referências pop Os invisíveis, na qual um dos personagens centrais é Lord Fanny, um menino carioca que é criado pela avó como menina, pois um homem não poderia herdar os poderes ligados a sua família - para criar a personagem, Grant Morrisson se referenciou no fato que entre alguns povos antigos da América do Sul existiam Xamãs travestis que eram respeitados e aos quais eram associados poderes mediúnicos.

Sarah Rainmaker (Gen13)


O Gen13 é um grupo de adolescentes da editora Image que segue a linha X-Men, mas com histórias mais divertidas e, diferentemente do grupinho da Marvel, os personagens demonstram terem interesses sexuais uns pelos outros. A descendente de índios americanos Sarah Rainmaker – uma espécie de versão da X-Men Tempestade – tinha interesse por meninas (a série não deixa claro se ela era gay ou bissexual, uma vez que ela flerta com um rapaz da equipe também).

Fun Home. Uma Tragicomédia em Família 


Publicada no Brasil em novembro de 2007, trata-se de uma HQ autobiográfica escrita por Alison Bachdel e eleita melhor livro em quadrinhos pela revista Time, com muita razão. Com muita sensibilidade, roteiro perfeito e belo traço, a autora conta a descoberta de sua homossexualidade e da do próprio pai. Além da história real sobre si mesma, a cartunista Alison é autora de uma tira publicada nos estados Unidos sobre o universo lésbico: Dykes to watch for (algo como “Sapatões para se observar”) . 

Entre em Contato com o Mundo HQ

Seu endereço de email não será divulgado, porém, deverá ser um e-mail válido para obter a resposta. Campos obrigatórios são marcados*