Dalcio Machado: o cartunista com nanquim no sangue

Dalcio Machado: o cartunista com nanquim no sangue
Por Djota Carvalho

Após anos de relutância, Dalcio Machado criou vergonha (ou talvez tenha superado a timidez) e lançou no final de 2009 o seu fotoblog: http://dalciomachado.blogspot.com. Amigos e cartunistas insistiam há tempos, sem sucesso, para que Dalcio disponibilizasse seu trabalho na rede (eu mesmo cheguei a me prontificar para fazer um blog, um twitpic, e nada). No fim, coube ao Jean o trabalho de dar o pontapé inicial e Dalcio, como todo bom tímido, não falou nada para ninguém. Fiquei sabendo pelo Amorim e quando escrevi a Dalcio para cumprimentá-lo, recebi uma típica pérola dalciniana: “Fala, Djota! Os brutos também blogam!”. O leitor me perdoe a introdução longa – afinal isso é um texto supostamente biográfico do artista -, mas ela já dá várias pistas da personalidade de Dalcio. Mais ainda, ela explica porque demorei tanto para acrescentar esse campineiro multitalentoso no Quadrinistas, Graças a Deus: prometi a ele que só faria sua ‘ ficha’ quando ele tivesse o blog. Dalcio cumpriu sua parte, então vamos à minha.

Dalcio Machado nasceu em 10 de fevereiro de 1972, em Campinas, e é um dos artistas (chargista, cartunista, caricaturista, ilustrador, pintor, compositor e outros istas) mais talentosos do Brasil, em especial na nona arte. Até o momento já ganhou mais de uma centena de prêmios em salões de humor de todo o mundo, um número que não dá para ser atualizado, pois, pode ter certeza, enquanto você lê esse texto, Dalcião está ganhando mais um prêmio em outra parte do planeta, e de maneira merecida. O sujeito tem nanquim no sangue. 
E falo isso literalmente: quando trabalhava no jornal Correio Popular, ainda moleque, Dalcio colocava nanquim em um copinho de café que deixava sobre a prancheta e, certo dia, colocou também ali um copo com o café que estava tomando. Não deu outra: trocou as bolas e tomou o nanquim.


Mas não coloquemos o carro na frente dos bois. Garoto típico do interior, Dalcio – aliás, o nome é sem acento (“aquilo é um ponto sobre o ‘i” mais cumprido. O Ziraldo me mandou tirar uma vez, mas descaracterizou a assinatura”) desenha desde os dez anos. No começo, era mais ligado em figuras de monstros e nos personagens na linha dos desenhos de Conan, o Bárbaro, mas os desenhos começaram naturalmente a ficar mais engraçados, com narizes e orelhas maiores. 

“Então fui influenciado por umas ilustrações humorísticas de um livro de matemática do Ensino Fundamental. De matemática mesmo não aprendi grande coisa. Meu pai, Hélio Machado, era treinador de cavalos de corrida na Fazenda Rio das Pedras (em Barão Geraldo/Campinas) e nas horas vagas, era um bom desenhista, embora tivesse ainda mais habilidade com esculturas. Fazia ótimos bois e cavalos, com todo tipo de madeira. Também era compositor de músicas caipiras. Essa foi minha formação”, conta.


Ainda na escola, o autodidata Dalcio desenhava com lápis em papel de pão. Via os desenhos nos livros didáticos e copiava até que começou a criar os próprios traços. Aos 13, publicou a primeira charge no jornal da Pastoral Operária. Com o dinheiro, comprou caneta nanquim. Com a mesma idade, fez alguns meses de curso de desenho com o artista plástico Paulo Branco. “O que não aprendi com o Paulo, acabei aprendendo sozinho. Aliás, quando digo "sozinho" estou sendo ingrato com dezenas de cartunistas que me inspiraram e, de alguma forma, me ajudaram a encontrar meu caminho. Nesse sentido, o Salão de Humor de Piracicaba foi minha faculdade”, pontua.

Dalcio descobriu o salão graças a uma professora de história, que viu que o aluno gostava de desenhar e deu a dica. O menino leu a reportagem na revista Isto É, repleta de desenhos coloridos, e ficou obcecado para participar do salão. “No salão seguinte me inscrevi, não fui selecionado, mas não desanimei. Tinha um ano inteiro para me preparar e, com 15 anos, meu desenho estava lá. Peguei minha mãe e minha irmã e fomos de ônibus ver a exposição. Quando olhei meu trabalho exposto, me senti no Reina Sofia (o museu de Madri). O desenho estava amassado, parecia que uma fanfarra tinha passado por cima dele. É que eu não tinha os macetes de embalar para enviar. Não ganhei nada, mas tudo aconteceu ali”, conta.


Dalcio viria a ganhar inúmeros outros salões e tanto o fez que acabou sendo gentilmente a integrar o júri, para dar espaço a outros talentos... Mas, voltando à juventude do autor, aos 16 anos Dalcio foi contratado pelo Correio Popular de Campinas. evou os desenhos para serem avaliados em uma quinta-feira e achou que o editor-chefe não tinha gostado muito deles. No domingo, foi surpreendido quando o pai chegou em casa com o jornal e, na capa, lá estava uma caricatura dele, de Aureliano Chaves, então ministro do governo de José Sarney.

“O Hafis era o chargista do Correio e logo em seguida ele tirou férias, mas deixou todas as charges prontas. Na semana em que voltaria, porém, ele quebrou o dedo e me chamaram para assumir. Tirei de letra. E quando voltou, ele estava meio cansado de fazer charges e, além disso, tinha outro emprego. Foi bom para os dois. Ele saiu e eu assumi sozinho durante dois anos até entrar na universidade, em publicidade e acabei numa agência, deixando o jornal por um tempo”, conta Dalcio.


Saiu do jornal, mas o jornal não saiu dele. Sentia falta da informação e do humor das charges, por isso voltou: entre 1991 e 1995, foi chamado para trabalhar no jornal Diário do Povo (também de Campinas), onde fazia caricaturas, charges, vinhetas e muito mais. Aos 19 anos, foi para São Paulo atrás de editoras, queria ilustrar livros infantis. Fez trabalhos como free-lancer, continuou a participar do Salão de Piracicaba e começou a fazer amizades com grandes nomes da área.

Em 1996 mandou para o Salão uma caricatura de Jimmy Hendrix e um editor da revista Playboy que estava no júri o chamou para trabalhar na revista. “Foi meu primeiro trabalho nacional e me abriu as portas. A gente tinha combinado um valor e ele pagou mais, porque gostou muito.”


Em 1997, o Diário do Povo o chamou de volta, mas em um esquema que o artista utiliza até hoje para trabalhar: não precisava ficar na redação, podia trabalhar em seu estúdio particular, em casa, e mandaria as charges para o jornal. Em 1999, Dalcio venceria o Salão de Piracicaba com uma caricatura que chamou a atenção da mídia do Brasil para seu trabalho: um Chico Buarque realista, desenhado com técnicas pouco conhecidas até então. Dalcio começava ali a fazer escola e a decolar ainda mais na carreira. 


Em 2003, voltou para o Correio Popular como chargista (onde permanece até hoje). Para muitos, suas charges superaram suas maravilhosas caricaturas graças a um humor demolidor e, ao mesmo tempo, refinado e certeiro. Uma coleção delas foi lançada pelo jornal, em livreto comemorativo dos 80 anos de existência do Correio, em 2007. Dalcio também publica seus trabalhos em diversas revistas nacionais (entre as quais a Veja), jornais (além do Correio, o Estadão já publicou diversas caricas) e tem trabalhos feitos para redes de TV como a Globo. 


E isso é pouco. Desde 2004, começou a pintar telas de maneira “mais séria”, apesar de não expô-las. Os amigos que freqüentam sua casa, em Sousas (também em Campinas) têm o privilégio de ver algumas. Mesmo com tudo isso, Dalcio ainda tem tempo de passear de vez em quando com o cachorro (um dálmata chamado Nanquim), dar dicas de desenho para qualquer um que se interesse em abordá-lo a respeito, compor músicas (samba e sertanejo), curtir a esposa, dona Lu, e bater papo com os amigos.


Aliás, esta é uma das principais características de Dalcio, que curiosamente é avesso a falar em público: sua simplicidade. Mesmo com seus multiprêmios e fama crescente, Dalcio é uma pessoa absolutamente modesta e que faz questão de estar sempre acessível não só para os amigos que conhece como também para aqueles que faz com a maior facilidade do mundo. 


Para terminar, um ping-pong com respostas de Dalcio “ catadas” na internet, sobre temas interessantes:

Influências – “Pela ordem e enxugando muito: o argentino Mordillo e os brasileiros Ziraldo, Laerte, Cárcamo e Angeli”

Craques da charge nos dias de hoje – “É praticamente impossível citar todos, já que são muitos. Vou desprezar grandes nomes para ficar só com cinco: os brasileiros Angeli e Jean, o mexicano Boligán, o norte-americano Luckovich e o francês Plantu”

Dica para quem quer desenhar – “Desenhe o dia todo, se possível. Visitas a salões de humor são imprescindíveis. Temos o de Piracicaba aqui na região, que é o mais tradicional do Brasil e um dos mais respeitados no mundo. Nele, há o encontro de grandes cartunistas e desenhos, de várias partes do mundo, que são verdadeiras aulas de humor gráfico. Invariavelmente, se volta de lá com inspiração para desenhar um ano inteiro”

Método de produção – “Logo cedo eu leio os jornais. Depois faço os frilas: ilustrações para revistas e livros. Então dou uma geral nas inscrições para salões de eventos e concursos. Se tem algum com o prazo próximo, faço uma caminhada para desenvolver alguma idéia. A partir das 18 horas tenho de me concentrar em criar a charge para o Correio Popular. Então releio algumas partes do jornal para escolher o tema. Às vezes aparece uma idéia de primeira, sem muita briga. Porém, na maioria das vezes o papel fica em branco por longo tempo, até chegar a alguma idéia que me convença. Com a idéia domada, desenho-a a lápis, depois finalizo com nanquim. Por fim, passo para o computador e faço a pintura. Envio a charge por volta das 21 horas (...) Na verdade, o ideal é que fosse pura inspiração. Mas nem sempre isso acontece. Tem dia que você não está inspirado, dia em que você não tira o coelho da cartola. Eu adoro quando estou inspirado, quando sai de bate-pronto. Anoto os temas no papel. Às vezes, a charge sai rápido”

Dalcio por Dalcio – “É um cara pacato pra caramba, pacatão. Eu até queria ser um cara muito mais extrovertido. Mas eu consigo quebrar isso através do meu desenho. Ele é uma forma de exorcizar esta timidez. Através do desenho eu posso assumir a forma que eu quiser. Nele eu falo de coisas muito engraçadas, irônicas, mas como pessoa sou um cara “na minha”, no meu canto. É o desenho que vai para todos os cantos, que passa as minhas idéias. É o meu ‘boy’ “


Em tempo, esta matéria foi escrita em 2009, de lá pra cá Dalcio já ganhou mais um monte de prêmios, lançou dois livros infantis (Não brinque com a comida e Flubete) e também entrou no facebook: https://www.facebook.com/dalcio.machado


Assista ao Vídeo:
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