Shin-chan: o Calvin-reverso

Shin-chan: o Calvin-reverso


“Shin-chan, ou Shinnosuke Nohara (seu nome verdadeiro), é um garoto de 5 anos, mas com a linguagem de um adulto. Ele diz coisas que ninguém da sua idade seria capaz de dizer.” Por esta descrição sucinta, que consta da Wikipédia (ou constava até abril de 2013), há quem possa pensar que o personagem de mangá criado pelo falecido autor Yoshito Usui tem alguma semelhança com Calvin, o menino criado por Bill Watterson que por dez anos desfilou genialidade em tiradas com mordacidade e criticidade muito além dos supostos seis anos que tinha. Ledo engano. Se os dois personagens fossem do universo dos super-heróis, Shin-chan seria o Calvin-reverso ou quem sabe até o Calvin-Bizarro. E bota bizarro nisso.


Não se trata apenas das características físicas dos dois meninos, já que Shin-chan tem os cabelos negros curtinhos e grossas sobrancelhas da mesma cor, em oposição às madeixas loiras espetadas do amigo de Haroldo. O fato é que, se o humor das tiras de Calvin é inteligente e quase sempre sofisticado e demolidor, o das histórias de Shin-chan é escrachado e beira ao vulgar. Tanto que na versão para os desenhos animados os produtores promoveram uma “suavização” do que ocorria nos quadrinhos e, ainda assim, boa parte dos pais nipônicos consideram o personagem um mal exemplo para as crianças.


Filho do casal Misae e Hiroshi, ela uma mulher extremamente imatura e ele um típico japonês focado no trabalho e que por vezes exagera no saquê pra compensar, Shin-chan é um menino bastante estranho, para dizer o mínimo. Apesar da idade, é apaixonado por qualquer mulher bonita e constantemente mostra suas partes para elas. Adora também ficar com o traseiro de fora e fazer uma tal de “dança da bundinha”.


Para completar, irrita ao extremo os garotos da sua classe da “Turma dos Girassóis” e, verdade seja dita, faz bullying o tempo todo...somente com os adultos, em especial com a mãe, sua vítima favorita. E aí entram na história diversos elementos que fazem as histórias parecerem muito com aqueles livrinhos de piada de gosto duvidoso que constantemente são vistos nas bancas.


Shin-Chan tira sarro dos “peitos pequenos e achatados da mãe”, a chama de “Misae tábua-de-passar” ou “da bunda gorda” e constantemente acaba exibindo as calcinhas dela para quem quer que esteja perto (em inúmeras vezes enquanto ela as veste). Tem problemas para se limpar e exibe as cuecas sujas, conta para a vizinha que quando os pais ficam sozinhos a mãe sobe em cima do pai e sempre após alguns gemidos pede desculpas e a vizinha fala algo do tipo “isso é natural, pois a aranha come a cobra”.


É claro que há, sim, momentos em que aparecem boas piadas e é possível ignorar os excessos (que poderiam até ter certa graça, se não fossem repetidos à exaustão e de forma forçada). No entanto, em geral os bons momentos não compensam a leitura. Tanto que, lançado no Brasil pela Panini em 2004 a revista teve apenas 12 números e terminou sem deixar saudade (nem aviso aos leitores, por sinal).


Diga-se de passagem, consta que a editora – que na época começava também a surfar na onda de mangás – resolveu apostar em Shin-chan porque em a versão anime passava na Fox Kids, tanto que estampava nas capas “Sucesso na TV”. Pelo visto, o responsável pela revista no Brasil não sabia da existência das diferenças entre a versão em papel e a animada (nesta última, o personagem tem até uma irmãzinha, Himawari). Se bem que, por outro lado, nas capas brasileiras as piadinhas forçadas ficavam ainda mais vulgares de que nas histórias em si, dentro do gibi...


Yoshito Usui, criador da série Shin-Chan, iniciou o mangá em 1990 e não participava diretamente da produção do desenho, que foi lançado em 1992 – e ganhou versões não só dubladas em português como também em espanhol e em inglês, nas quais é chamado de Crayon Shin-Chan. O autor foi encontrado morto em uma região montanhosa do Japão em 19 de setembro de 2009, aos 51 anos. Ele estava desaparecido há nove dias e tudo leva a crer que caiu em um abismo quando fazia uma trilha em uma montanha japonesa. Com o falecimento de Usui, que já não lançava números inéditos desde 2008, foram lançadas algumas publicações póstumas, mas a tendência é que ninguém assuma o título nos quadrinhos (foram cerca de 50 volumes, ao todo). Já a produção do anime continua por meio dos profissionais da Shin-Ei Animation.


Além do personagem principal e família (sem esquecer do cachorro Luke), as histórias de Shin-chan também têm outros personagens fixos, como os coleguinhas da Escolinha Futaba, na Classe dos Girassóis (Nenê, Kazama, Masao e Boo-chan), as professoras solteironas, o diretor “mafioso” e a abastada família de Nenê, cuja mãe sempre perde a pose e as estribeiras com o garoto.



Uma curiosidade interessante sobre Shin-chan é que, quando começou a ser exportado para os EUA, houve entre os produtores quem vendesse o personagem como “o Bart Simpson japonês”. Bobagem. Ao menos nos quadrinhos, o nível de Shin-chan está bem mais para as piadinhas que com certeza são ouvidas no bar do Moe do que para as artimanhas de Bart.  


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Shin-chan: o Calvin-reverso

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